A antropóloga argumenta que as plataformas não são ferramentas neutras e o campo democrático precisa de estratégias híbridas, nos algoritmos e além dos algoritmos, para ganhar a eleição presidencial.
A Meta, dona do Instagram e do Whatsapp, está interferindo nas eleições brasileiras, afirma a antropóloga Letícia Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina e autora de “Cartografia da extrema direita”, junto das pesquisadoras Marina Basso Lacerda e Isabela Kalil.
Nos últimos dias, usuários mostraram que a inteligência artificial da Meta no WhatsApp aceita pedidos para gerar imagens com “Flávio 22”, mas teria restrições para fazer a mesma coisa quando o prompt vem com “Lula 13”.
É mais um caso de muitos relatados durante as eleições. A ONG CTRL+Z reuniu mais de mil casos de censura, banimentos, restrições a contas e queda no alcance de perfis do Instagram que postaram sobre as eleições no Brasil. A maioria das interferências aconteceu com perfis favoráveis a Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil e candidato à reeleição pelo PT.
Quando questionada pela campanha de Lula no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, a empresa de Mark Zuckerberg negou interferência eleitoral, e disse que um problema com as visualizações de postagens do presidente Lula foi causado por uma falha técnica global. Não é a primeira vez que a campanha do petista é afetada pelas plataformas da empresa: em setembro, o uso de anúncios foi desabilitado temporariamente para o perfil de Lula no Facebook.
O impasse político brasileiro é tecnopolítico: não dá para falar de política, eleição e comunicação sem falar das redes sociais, que fazem um “parasitismo” com a vida offline, trazendo a lógica da economia da atenção e da manipulação das plataformas para o mundo fora delas.
Na conversa com o Intercept Brasil, Cesarino deixa claro que as plataformas não são simples ferramentas que podem ser usadas de forma boa ou ruim. Elas são ambientes, que a antropóloga compara a um rio: tem um fluxo, um sentido, e quem nada na mesma direção da correnteza ganha uma ajudinha do rio.
No caso das redes sociais, essa correnteza é o algoritmo, que se move no sentido da extrema direita, privilegiando posts e pautas extremistas, como a antropóloga já argumentou no livro “O mundo do avesso“. As plataformas, então, estão bem longe de ser ferramentas neutras.
Agora, em seu novo livro, Cesarino estuda como as plataformas intensificam a radicalização, levando jovens a participar de comunidades extremistas, caracterizadas por violência e misoginia.
Os grupos vão desde “celibatários involuntários”, conhecidos também como incel, que acreditam que são perdedores na loteria biológica e, portanto, indesejáveis para as mulheres, ou panelas de Discord que incentivam automutilacão e até suicídio.
Na entrevista, a antropóloga argumenta que muitas dessas trajetórias de radicalização se associam à extrema direita, que usa a misoginia para benefício eleitoral, como no caso dos recém-eleitos Lucas Pavanto e Eduarda Campopiano, do PL de São Paulo.
Leia a conversa completa no Intercept Brasil.